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Deriva

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Dia 17 de Dezembro é uma data importante para o larp. Primeiro, porque marcava o início da Saturnália, festival romano apontado por Brian Morton (no livro Lifelike) como um dos ancestrais do larp. Segundo, porque assinala a execução de A Clínica: Projeto Memento, larp que é um dos marcos do que o Luiz Falcão (autor do larp) chama como a entrada do larp brasileiro numa "terceira onda" (o texto completo pode ser encontrado no livro The Cutting Edge of Nordic Larp). Terceiro, foi a data escolhida para realizar o Memorial Evening de Elge Larsson, figura de estimada importância na cena nórdica de larp, certamente ressonante também no Brasil (clique aqui para postagem do NpLarp sobre o assunto). E agora, data também a execução de Deriva, na despedida de Apenas um Jogo, programação sobre larp do Espaço de Tecnologias e Artes do SESC Itaquera, que contou com curadoria do Luiz Falcão.
Deriva é um larp de Luiz Prado, o primeiro de uma série batizada "Larps de Amor, de Loucura e d…

Ajuste os controles para o centro do sol

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Mesmo não sendo minha primeira oportunidade de participar de Ajuste os controles para o centro do sol, de Luiz Prado, certamente foi a mais marcante. Antes, participei do jogo no Ciclo de Vivências em Jogos Narrativos e na, carinhosamente apelidada, blackbox sorocabana.
Dessa vez, o larp ocorreu durante o 11º Encontro de RPG do CCJ, promovido pela Confraria das Ideias (site, blog e Facebook). Além de ter participado de um larp da própria Confraria (relato aqui), ocorreu uma aplicação de Ajuste..., que dessa vez contou com a produção do Boi Voador.

Resumidamente, Ajuste... trata do cotidiano da tripulação de uma nave (a primeira a sair do sistema solar) que, por conta de um infeliz desvio de rota, se vê numa jornada de volta ao lar que irá durar 80 anos.

A primeira coisa que chama atenção no larp é o set-up do jogo. Num diálogo intenso com RPGs de mesa e boardgames, os participantes são convidados a criar o futuro no qual estarão inseridos em Ajuste..., ao utilizarem post-it para resp…

Cegos, Surdos e Mudos

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Entre os dias 8 e 10 de Dezembro, rolou o 11º Encontro de RPG no CCJ, promovido pela Confraria das Ideias. Antes de falar sobre o larp que eles organizaram per se, algumas palavras são necessárias sobre a Confraria.

A Confraria atua desde 1999, formalizada como ONG em 2007, promovendo (sobretudo) larps em bibliotecas públicas e centros culturais. Se for para considerar uma única entidade como responsável em ter trazido o larp brasileiro para onde está hoje, certamente seria a Confraria das Ideias. Mesmo ao complexificarmos esse processo, inserindo outros responsáveis, ainda assim a Confraria merece lugar de destaque. E, dada a experiência do último larp que eles organizaram, continuarão merecendo.

Feito esse reconhecimento, voltemos ao evento ocorrido no Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso. Na ocasião, tive a oportunidade de participar de dois larps (o relato sobre o outro está disponível aqui). O primeiro, objeto desse relato, foi Cegos, Surdos e Mudos, realizado em duas aplic…

So, You Think You Can Dance?

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Exatamente há 70 anos (29 de novembro de 1947), a ONU aprovava a Resolução 181. De lá para cá, o conflito entre Palestina e Israel têm sido notícia constante. Mas, apesar de noticiado, é necessário observar a ignorância geral da população de outros países (como é o caso do Brasil) sobre a questão. Então, Você Acha que Consegue Dançar? (So, You Think You Can Dance?, no original) lida justamente com esse desconhecimento sobre o tema.
Anos atrás, quando ainda estava começando a conhecer o larp por intermédio do Luiz Falcão e do Luiz Prado, tive a oportunidade de gravar um podcast com eles. Na ocasião, falaram (entre vários outros assuntos) sobre o larp Halat hisar. Se eu precisar apontar um único larp que me fez decidir pela trajetória acadêmica envolvendo larp, Halat hisar, uma co-produção Palestina-Finlândia que buscou levar a realidade de ocupação palestina para o cotidiano finlandês, é o escolhido. O motivo era a seriedade do tema, além das reflexões que ele provocou nos participant…

Dogme #1: 13 til bords

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A comensalidade têm se mostrado importante na relação entre arte e fraternidade. A mesa de refeições, nesse aspecto, se torna praticamente mais uma personagem na complexa teia que envolve pessoas por meio de um determinado vínculo que as une. O cinema documental demonstra isso com uma profunda reflexão em Crônica de um Verão, dirigido por Jean Rouch e Edgar Morin em 1961 (com direito a discussão acadêmica ligando o documentário francês ao brasileiro Jogo de Cena). Trinta e sete anos mais tarde, o Manifesto Dogma 95 (que visava um cinema mais orgânico, assinado pelos diretores Thomas Vinterberg e Lars von Trier) retoma a comensalidade em seu Dogma #1: Festa de Família.

Não por acaso, Festa de Família é uma das grandes inspirações de 13 à mesa (13 til bords, no original norueguês), criado em 2000 por Kristin Hammerås e Solveig Malvik, larp realizado na edição de novembro do FERVO, que ocorreu no aconchegante restaurante Cantinho da Cecília, na chuvosa noite do dia 21, e contou com 6 pa…

Ilha das Bruxas

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Em clima de Halloween, o Apenas um Jogo (programação de larp realizada pelo Luiz Falcão no ETA do SESC Itaquera) de outubro, realizado no dia 29/10, trouxe Ilha das Bruxas, um larp desenvolvido pelo próprio Luiz Falcão em parceria com o André Sarturi, referenciado tanto em As Bruxas de Salem, peça teatral de Arthur Miller, quanto em Terra dos Pecados, larp desenvolvido por Sarturi e objeto de pesquisa em seu mestrado.


Tanto Ilha das Bruxas quanto suas referências fazem alusão clara aos episódios de julgamentos de feitiçaria na cidade de Salém (Estados Unidos). Isso aconteceu em outubro de 1692. Mas não parece.
O clima que permeou o larp e, sobretudo, as discussões posteriores, foi sobre a atualidade do tema. Que "bruxas" nossa sociedade caça hoje, como operam os "epidemias de julgamentos" (que me fizeram lembrar dos contágios psíquicos) e questões de gênero permearam as discussões dos nove participantes (onze, se contarmos também os dois organizadores). Um relato …

Federais - a chamada da pátria insultada

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No dia 19/10, tive o prazer de participar do "Federais - a chamada da pátria insultada", novo larp do Luiz Prado, realizado na versão de outubro do FERVO.
O larp em questão, devo frisar, foi um que tive a oportunidade de participar da semente criativa: começou com uma conversa despretensiosa entre eu, o Luiz Prado e o Luiz Falcão, sobre os inusitados nomes das operações da Polícia Federal. Depois de muita risada, o Luiz Falcão soltou o bordão "isso daria um larp". Algum tempo depois, o Luiz Prado disse que havia dado cabo ao desafio. Similar à origem, afirmou que seria um larp igualmente despretensioso. Como todos os 7 participantes puderam constatar, foi tudo o que Federais não foi.
Durante sua pesquisa para a criação de Federais, Prado nos revelou que a principal dificuldade foi lidar com a polissemia de opiniões e visões sobre a Polícia Federal. Elegantemente, trouxe isso para o larp por meio tanto da criação das personagens, definidas por uma característica da…